quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

No site http://www.eternoretorno.com/ encontrei o comentário brilhante do Livro a "Insustentável Leveza do Ser" abaixo descrito. Veio mesmo de encontro a este laboratório mental que analisa o porquê de não aprendermos com os nossos erros e de nossos semelhantes. Demorando varias gerações para assimilá-los.
A vida e a natureza ensinam constantemente o que fazer para melhorar e encontrar a felicidade.
Pelo que tudo indica, a felicidade esta mesclada entre mais de uma dimensão e não poderá ser buscada apenas na matéria tangível do momento, nem num século de vida humana, tempo curto para mensura e sentir de forma definitiva.
O estudo de nossos antepassados e de toda a Historia mundial por uns 10 anos com afinco e o objetivo claro de perceber os erros cometidos, economizaria uns 40 anos de nossa própria vida na busca da felicidade.


A INSUSTENTÁVEL LEVEZA DO SER

Enquanto as pessoas são ainda mais ou menos jovens e a partitura de suas vidas está somente nos primeiros compassos, elas podem fazer juntas a composição e trocar os temas (…), mas quando se encontram numa idade mais madura, suas partituras musicais estão mais ou menos terminadas, e cada palavra, cada objeto, significa algo de diferente na partitura do outro. - A insustentável leveza do ser, Milan Kundera
Milan Kundera é um escritor tcheco, contemporâneo, que se consagrou justamente com o romance A insustentável leveza do ser (1983), embora tenha muitos outros. Kundera admira o pensamento de Nietzsche, de tal forma que seus romances são marcados, brilhantemente, pela casualidade. No palco onde seus personagens enfrentam os sabores e dissabores eróticos não há ordem, cronologia muito menos objetivo, há encontros e desencontros fortuitos de forças potenciais que escapam à apreensão humana.
No romance em questão, Kundera, além de jogar seus personagens no caos da casualidade, situado em Praga, em plena atmosfera de invasão russa e tensão política, também coloca a vida cotidiana dentro do pensamento do eterno retorno ou retorno do mesmo, um dos pensamentos mais intrigantes de Nietzsche. Difícil apresentar um conceito para o eterno retorno, o próprio filósofo não deixou tal pensamento acabado. Digamos que é um mecanismo cosmológico de duas faces, onde o indivíduo, ao compreender que na vida tudo é uma repetição, os sentimentos, as emoções, os afetos, as ações… vão e voltam, da mesma forma, mudando apenas o figurino, pode então afirmar incondicionalmente a vida ou então “quebrar-se” e abraçar o niilismo. (Mais sobre o eterno retorno >>>)
Dentro dessa perspectiva, os personagens de A insustentável leveza do ser mudam de parceiros, buscam novos cenários e motivações mas percebem o caráter repetitivo dos sentimentos, dos prazeres e desprazeres que vão e voltam. Tomas e Tereza, Franz e Sabina, ora parceiros, ora casais, cada qual com suas virtudes e vícios, percebem-se em suas “insustentáveis levezas”. A insustentável leveza do ser é justamente o caráter efêmero, fortuito, casual do ser diante da vida inaudita; nada se finca ou se fixa diante do inefável.
Os personagens de Kundera neste romance são leves, Tomas coleciona encontros e relações sexuais, mas compreende que todas suas buscas é um retorno ao mesmo, retorno a Tereza. Tereza, por sua vez, tenta se encaixar numa ordem, mas percebe o peso de se manter sobre os grilhões de suas idéias. Franz parece-se com Tereza, busca se situar em algo, mas a casualidade rompe com os seus planejamentos e caminhos retos. Sabina parece-se com Tomaz, também dança a música da casualidade dentro de um show que parece sempre ter os mesmos aplausos e vaias. Tomaz e Sabina são metáforas da leveza do ser, o ser jogado dentro de uma perspectiva existencialista sartreana, por assim dizer, seres condenados à liberdade de escolher, porém, suas escolhas são oferecidas casualmente pelo devir.
Kundera ainda nos brinda com um personagem que não é humano, mas compreende os humanos mais do que qualquer humano: a cachorrinha Karenin. O último capítulo do livro, “O sorriso de Karenin”, é um dos mais belos que já li, traz em tona a relação do homem com os animais.
Os animais, representados por Karenin, estão a nossa mercê, não porque somos superiores, mas porque nos achamos superiores. Para isso, Kundera faz uma releitura do mito de Adão e Eva e também satiriza - a melhor parte - o pensamento de Descartes. Nós humanos não nos damos conta dos animais, eles são como objetos mecânicos, sem alma, como dissera Descartes, e é com esse “objeto”, Karenin, que Tereza se refugia e encontra-se com os melhores prazeres de sua vida. O amor de Tereza e Karenim é completo, sem dúvidas, sem conflitos, sem dissabores, é o oposto do seu amor com Tomaz. Dentro dessa perspectiva é possível perguntar quem está a mercê de quem: os animais ou nós? - Kundera deixa nas entrelinhas uma resposta, diz-nos, que quando nos reconhecemos nos animais significa que nos divorciamos da humanidade, tal como o fez Nietzsche quando se deparou com um cocheiro que batia em um cavalo; na ocasião, o filósofo abraçou o animal pediu desculpas pela ignorância e estupidez humana e caiu em convulsões, naquele momento Nietzsche se distanciou da humanidade e passou para um plano de lucidez que ainda não existia entre os humanos - e ouso dizer que ainda não existe.

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